INTERCAMBIALIDADE
DAS VACINAS CONTRA A
MENINGITE MENINGOCÓCICA DO GRUPO C
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É
posta a questão de saber se as diferentes marcas comerciais das
vacinas para a prevenção da meningite meningocócica
do grupo C podem ser usadas indistintamente para completar o ciclo de
vacinação em crianças com menos de 1 ano.
Para responder
a esta questão, analisaremos sucessivamente os seguintes aspectos:
i) composição qualitativa e quantitativa das diferentes
marcas comerciais de vacinas antimeningocócicas existentes no mercado;
ii) análise sucinta dos mecanismos presumivelmente envolvidos na
resposta imunitária às vacinas e relevantes para esta questão;
iii) experiência no uso destas vacinas noutros países que
a incluam nos respectivos planos de vacinação.
1 – Composição qualitativa e quantitativa
das vacinas antimeningocócicas
Encontram-se
actualmente autorizadas quatro diferentes marcas comerciais de vacinas
antimeningocócicas, Meningitec®, Menjugate®, Menivact®
e Neisvac-C®, cuja composição qualitativa e quantitativa
é a seguinte:
| Nome |
Antigénio
|
Proteína
de conjugação |
Adjuvante |
| Meningitec® |
Oligossacáridos
de meningococos grupo C
10 µg
|
Proteína
diftérica
(CRM197)
15 µg
|
Fosfato
de alumínio
0,5 mg
|
| Menjugate® |
Oligossacáridos
de
Meningococos grupo C
10 µg
|
Proteína
diftérica
(CRM197)
12,5 a 25 µg
|
Hodróxido
de
Alumínio
1,0 mg
|
| Menivact®
(*)
|
Oligossacáridos
de meningococos grupo C
10 µg
|
Proteína
deftérica
(CRM197)
12,5 a 25µg
|
Hidróxido
de
Alumínio
1,0 mg
|
| Neisvac-C® |
Oligossacáridos
de
Meningococos grupo C
10 µg
|
Toxóide
tetânico
10 a 20 µg
|
Hidróxido
de
Alumínio
0,5 mg
|
(*) – não
está a ser comercializada no nosso país.
Todas
as vacinas referidas apresentam na sua composição polissacáridos
capsulares da estirpe C11 do serogrupo C da Neisseria meningitidis, conjugados
com proteínas e adjuvante (alumínio).
No entanto, as três
primeiras vacinas utilizam proteína diftérica para conjugação
com os polissacáridos, enquanto que a Neisvac-C® utiliza toxóide
tetânico.
Por outro lado o polissacárido
da Neisvac-C® é de-acetilado em O, ao contrário das restantes
vacinas, em que o polissacárido é acetilado nessa posição.
Esta alteração, motivada por razões de comodidade
de fabrico, não interfere com a eficácia desta vacina, como
demonstrado pelo produtor através de ensaios clínicos.
O efeito
da desacetilização não representa também alteração
na imunogenicidade, reactogenicidade e efeito bactericida dos anticorpos
produzidos quando confrontados tanto com formas O-acetiladas como des-O-acetilidas(1)
.
Os estudos realizados
mostram que qualquer das vacinas induz imunidade duradoura contra o serogrupo
C da N. meningitidis, apresentando imunogenicidade e reactogenicidade
idênticas.
Do mesmo
modo, o esquema posológico recomendado é idêntico
para todas as vacinas: para crianças com mais de 1 ano de idade,
adolescentes e adultos – uma dose única de 0,5 ml; para crianças
com menos de 12 meses – uma dose de 0,5 ml após os 2 meses
de idade e reforço com doses idênticas 1 e 2 meses após
a primeira administração.
(1)Richmont
P, Borrow R, Findlow J, Martion S, Thornton C, Cartwright K, Miller E.
Evaluation of de-O-acetyl meningococcal C polysaccharide-tetanus toxoid
conjugate vaccine in infancy: reactogenicity, immunogenicity, immunologic
priming and bactericidal activity against O-acetylated and de-O-acetylated
serogroup strains. Infection and immunity 69-4:2378-2382 (2001).
2
– Análise sucinta dos mecanismos envolvidos na resposta imunitária
à vacina
Para
que uma vacina induza memória imunológica é necessário
que as células T reconheçam os antigénios nela contidos
como fragmentos peptídicos de proteínas ligadas a moléculas
do Complexo Major de Histocompatibilidade (MHC). Deste modo, os antigénios
não proteicos deverão estar conjugados com uma proteína
transportadora para que seja possível o reconhecimento pelas células
T. O processamento do complexo antigénico e a sua apresentação
às células T é feito por células apresentadoras
de antigénio (CAA), entre as quais se contam os macrófagos
e as células foliculares dendríticas.
A
imunização primária por um complexo oligossacárido-proteína
(como é o caso da vacina conjugada antimeningite C) induz uma resposta
primária com resposta imunológica. As reexposições
subsquentes ao imunogénio (imunização secundária
e terciária) produzem respostas imunológicas de potência
crescente. Esta resposta anamnéstica pressupõe a expansão
e diferenciação clonal das células B, responsáveis
pela produção de anticorpos específicos.
Deste
modo, a resposta primária consiste habitualmente na produção
de anticorpos provenientes de um número elevado de diferentes percursores
celulares, com afinidades relativamente baixas e com reduzidas mutações
somáticas. Pelo contrário, a resposta secundária
provém de um número reduzido de percursores com alta afinidade,
cujos receptores mostram mutações somáticas e que
sofreram expansão clonal significativa. Ciclos repetidos de imunização
levam a um aumento da afinidade dos anticorpos devido a hipermutação
somática e selecção pelo imunogénio nos centros
germinais.
Sabe-se
que a resposta imune é largamente influenciada pela dimensão
e composição do componente proteico do imunogénio
e, sobretudo, pela sua capacidade de interacção com o MHC
do hospedeiro. Alterações conformacionais mínimas
da molécula podem condicionar diferenças significativas
na afinidade da resposta.
Assim,
e no caso das vacinas antimeningite C em análise, a questão
relevante é a de saber se os anticorpos gerados durante a imunização
primária com uma determinada proteína de transporte, perante
a imunização secundária com uma proteína de
transporte diferente têm sificiente afinidade para competir com
os centrocitos para ligação ao antigénio na superfície
das células foliculares dendríticas e assim evitar que células
B com imunoglobulinas de baixa afinidade sejam estimuladas e se produza
novamente uma resposta de “tipo primário”.
O
mecanismo de acção da proteína adjuvante nas vacinas
conjugadas continua praticamente desconhecido. Poderia induzir a expressão
de actividade co-estimulatória nas CAA ou mimetizar sinais co-estimulatórios
nas células T. Alternativamente, poderia aumentar a captação
do antigénio pelas células dendríticas que já
expressam moléculas co-estimulatórias. Na verdade, a utilização
deste tipo de adjuvantes continua a ser um exercício de natureza
largamente empírica.
3 – Experiência no uso destas vacinas noutros países
que a incluam nos respectivos planos de vacinação
Inglaterra
foi o primeiro país europeu a introduzir vacinação
generalizada contra o meningococo C em crianças iniciando o programa
com a única existente em 1999 – Meningitec®. Com o aparecimento
de novas vacinas com a mesma indicação clínica a
sua intercambialidade foi reconhecida. Fundamentaram a sua decisão
com base na experiência existente com as vacinas contra Haemophilus
influenzae tipo b conjugadas ao mesmo CRM, reconhecidamente intercambiáveis(2),(3)
, . Os restantes países europeus que a têm nos respectivos
planos de vacinação – Espanha, Bélgica flamenga
e Holanda (a iniciar) não emitiram recomendações
sobre esta questão.
4 – Conclusões
Não
existem ensaios clínicos que demonstrem inequivocamente que qualquer
uma das vacinas conjugadas contra a meningite C pode ser utilizada para
completar o ciclo vacinal em crianças com menos de 12 meses de
idade iniciado com uma vacina diferente.
No entanto, nada faz supor que entre as vacinas Meningitec®, Menjugate®
e Menivact® que apresentam a mesma composição qualitativa
e quantitativa, não exista total intercambialidade. Assim, parece
não existirem razões que contra-indiquem a utilização
indistinta de qualquer uma destas vacinas para completar o ciclo vacinal
em crianças com menos de 1 ano de idade.
Já
em relação à vacina Neisvac-C®, com uma composição
diferente das restantes no que se refere à proteína de conjugação,
a intercambialidade parece ser mais difícil de garantir na ausência
de estudos específicos para responder a esta questão.
Lisboa, 11 de Dezembro de 2002
(2)Richmond
P, Borrow R, Goldblatt D, Findlow J, Martin S, Morris R, Cartwright K,
Miller E. Ability of 3 different meningococcal C conjugate vaccines to
induce immunologic memory after single dose in UK toddlers. J. Infect.
Dis 183: 160-3 (2001)
(3)http://www.doh.gov.uk/meningitis-vaccine,
em USE OF MENINGOCOCCAL GROUP C CONJUGATE VACCINE
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